ERISVALDO FERREIRA DE JESUS
NEGRO COMO A NOITE
A HISTÓRIA
Certa vez, numa terra não muito distante de nome nordeste, vivia um jovem negro juntamente com sua família e amigos. O nome do jovem era “NEGRO COMO A NOITE” e ele era um rapaz muito voltado para seus amigos, família e sua história.
Negro como a Noite, como era chamado, era um negro muito lindo que vivia há muitos anos no sertão nordestino, na caatinga, numa comunidade entre amigos e familiares. Ele era muito pobre, todavia, Negro e sua família eram muito felizes, pois a sua pobreza fazia com que eles passassem grandes dificuldades, mas não os impediam de serem felizes e alegres, pois, Negro como a Noite tinha diversos dons, juntamente com sua família eles eram exímios caçadores, pescadores, além plantarem e cultivarem a terra muito bem, evitando o desmatamento e o uso indiscriminado dos recursos naturais.
Mesmo vivendo nessa comunidade tradicional entre amigos e pessoas queridas, naquela localidade existiam pessoas ruins, os grileiros, donos de fazendas, chegaram naquela localidade dizendo que as pessoas teriam que sair de suas casas, pois a terra pertenciam a eles. E caso as pessoas não deixassem suas casas, ou reconhecessem que a casa era dos fazendeiros eles iriam usar a força para banir as pessoas daquela localidade.
Mas, Negro como a Noite juntamente com outras pessoas da comunidade lutavam para garantir seu sustento e seu lar.
Certa vez, ao cair do dia, Negro como a Noite estava conversando com sua mãe:
- Mãe, estava pensando em sair e conhecer pessoas diferentes, melhorar a qualidade da vida da senhora, de meus irmãos e meu pai, que tanto trabalha e está doente e, mesmo assim, continua trabalhando sem poder se curar. E principalmente buscar ajuda para garantir as nossas terras e casas.
(Casa de Negro como a Noite)
A mãe de Negro como a Noite, então falou:
- Meu filho, será muito triste a sua partida, será que todos juntos aqui, não poderíamos conseguir melhorar e continuar nossa vida calma e feliz?
Negro como a Noite então falou:
- Bem que gostaria mãe, mas infelizmente as coisas estão realmente ficando difícil, pois, as pessoas não olham a gente como se fôssemos pessoas, muito pelo contrário, negam oportunidades e acham que não somos capazes de trabalharmos tão bem quanto eles na lida com as máquinas. Daí, o fato de não conseguirmos coisas melhores aqui na comunidade. O que de fato eles querem é tirar nossas terras e nos mandar embora.
Quando Negro como a Noite partia, duas pessoas encapuzadas o abordaram e falaram:
- Vá embora e não volte mais aqui, caso contrário toda sua família irá morrer, assim como você, e tem outra, suas terras serão nossas e no dia em que você retornar nem mesmo a casa vocês terão, enquanto isso sua família será obrigada a trabalhar para a gente.
Após essa conversa, os homens espancaram Negro como a Noite e o lançaram dentro do rio São Francisco.
Depois de horas agonizando entre a vida e a morte, Negro como a Noite foi resgatado por um senhor bastante idoso e com os traços de cansaço de tanto trabalho e labuta muito forte, contudo, assim que Negro como a Noite abriu seus olhos foi recebido com um grande sorriso. O senhor então disse:
- Jovem, pode ficar tranqüilo, pois o que quer, que tenha acontecido com você, quero que saiba, que aqui você estará a salvo, ninguém te fará mal, pois essa casa é protegida pelas entidades mais justas de todo o mundo.
Ao escutar as palavras do senhor, Negro como a Noite olhou para ele, começou a chorar e disse:
- Me ajude a salvar minha família, meu pai, pois eles estão sendo feitos de escravos na fazenda de um homem malvado e que trata a todos nós como se fôssemos animais e sem nenhum tipo de bondade.
Então o senhor disse:
- Negro como a Noite, esse é o momento de você buscar a verdadeira reviravolta em sua vida e o que eu e minha família pudermos fazer para melhorar a sua vida e ajudar sua família pode ter certeza que assim o faremos.
Com isso, Negro como a Noite começou a estudar e só tinha um objetivo para sua vida, se formar, voltar para sua terra ajudar seus pais, amigos e irmãos e salva-los daquelas pessoas sem nenhum escrúpulo.
Após muito anos de batalha, Negro como a Noite passou no vestibular para cursar o faculdade de Pedagogia, diversas pessoas caçoaram dele e falaram que com aquele curso ele não teria como ajudar sua família. Mas, o senhor disse:
-Negro, faça aquilo que o seu coração está pedindo, não tenha medo, pois seu guia estará sempre ao seu lado te protegendo e te guiando para que você possa de fato ajudar aqueles que você tanto ama.
(Faculdade de Pedagogia)
Após ouvir aquelas palavras, Negro como a Noite abriu um grande sorriso e disse para si:
- É verdade, tudo é possível nessa vida, realmente eu posso, não adianta aquelas poucas pessoas quererem me colocar para baixo, que não conseguirão me desviar de meu objetivo.
Após quatro anos na universidade pública Negro como a Noite chamou o senhor e, com a gratidão e o carinho que tinha, disse:
-Pai, chegou a minha hora de voltar para casa. Agora tenho conhecimento, consegui guardar um pouco do dinheiro do trabalho e agora tenho a ajuda de meu guia. E com os ensinamentos do senhor e da faculdade terei como ajudar e defender meu povo.
Então, olhando para o jovem o senhor disse:
- Meu filho! Sou OLORUM seu pai. Minha missão foi cumprida, segue e salva teu povo, leva pra eles mais informações e o poder de se organizar, seja um grande professor e um verdadeiro guia do saber sistematizado desse povo, tão rico em sabedoria da vida.
Negro como a Noite olhou fixamente para OLORUM e disse:
- Pode ter certeza, chamais abandonarei meu povo!
Voltando para casa, depois de anos sem notícias de seus amigos, de sua família (irmãos, pai e mãe). Negros como a Noite na viagem de trem de volta para casa, ficava olhando pela janela o horizonte e pensando nas dificuldades que enfrentaria para defender as pessoas que ama. Ao se aproximar de sua terra. Ele olhou para o alto e disse:
- Meus avôs! Antepassados, pessoas que amamos e meu guia me abençoem e cuidem de nosso povo nesse momento tão difícil para todos e todas as pessoas que nasceram e cresceram nessa terra.
Ao chegar à casa de seus pais, ele foi recebido com uma grande festa feita pelas pessoas daquela comunidade, no entanto, Negro como a Noite na avistou entre as pessoas da festa, seu pai e então perguntou:
- Minha mãe, onde está meu pai?
Então a mãe falou:
- Infelizmente ele foi morto pelos fazendeiros que queriam tirar as nossas terras, mas ele resistiu e tentou denunciar à justiça, num certo dia ele foi encontrado morto no matagal. No dia seguinte, capangas dos grileiros apareceram e disseram que aquilo era um aviso para todas a pessoas que tentassem algum tipo de revolta, ou questionassem os atos dos fazendeiros.
No dia seguinte, Negro como a Noite resolveu fazer uma reunião com toda a comunidade e autoridades da região, que lutavam pelo bem-estar da comunidade; depois da reunião, ficou definido que vários documentos seriam encaminhados à justiça e diversos projetos políticos educacionais se iniciariam naquela localidade.
Diante das diversas ações, vários grupos e organizações sociais tomaram parte daquela situação que o povo daquela localidade estava passando e decidiram se juntar aquela luta árdua para garantir a vida e a moradia daquelas pessoas tão sofridas.
Após anos de luta e derramamento de sangue inocente, felizmente a justiça olhou para aquele povo sofrido, mas lutador e decidiu que as terras em que aquelas pessoas viviam a centenas de anos pertenciam às pessoas que viviam ali.
Negro como a Noite juntamente com outras pessoas descobriram os mandantes e os assassinos de seu pais e os colocaram atrás das grades.
Depois que os moradores foram reconhecidos legalmente, como os verdadeiros donos das terras da comunidade, os moradores se organizaram e decidiram fazer uma grande festa para comemorar a conquista de todos e homenagear Negro como a Noite, por tudo que ele fez junto a comunidade.
Durante a festa, Negro como a Noite caiu no chão e se pôs a chorar, dizendo as seguintes palavras:
- Pai, meu Pai! Meu guia, minha luz! Muito obrigado OLORUM, que de agora por diante nosso povo possa viver feliz e com dignidade. Que nós não venhamos a ser vistos como animais e pessoas sem nenhum tipo de identidade e inteligência, pois somos fortes, bonitos e lutadores, assim como qualquer outra pessoa somos capazes de melhorar o mundo, e somos bonitos, muito bonitos… Nossos cabelos… Boca… Corpo… De fato, somos bonitos, somos negros, temos nossa história e queremos respeito e a garantia de nossos direitos.
Salve o povo negro! Salve a Zumbi! Salve o povo de OLORUM e de todos os Orixás!
Texto escrito como requisito de avaliação da disciplina Literatura e Educação, do Departamento de Educação, Campus I da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, solicitado pela Professora Mestra, Maria Antonia.
JESUS. Erisvaldo Ferreira. Negro Como a Noite. Salvador – Bahia, 2009.